A chamada
“Teologia da Prosperidade”, propagada hoje no Brasil
por alguns segmentos evangélicos, tem enfatizado que seguir a Jesus
é automaticamente candidatar-se a uma vida de sucesso financeiro,
de projeção social e quase imunidade a qualquer tipo de sofrimento.
Na verdade, até mais do que isto, segundo tal proposta, todo
cristão tem o direito de reivindicar e até exigir de Deus a
satisfação de seus desejos pessoais. Esta mensagem pode ser
resumida nas seguintes palavras:
A “teologia da prosperidade” está trazendo o celeste
porvir para o terrestre presente. Para comermos a melhor comida,
para vestirmos as melhores roupas, para dirigirmos os melhores
carros, para termos o melhor de todas as coisas, para adquirirmos
muitas riquezas, para não adoecermos nunca, para não sofrermos
qualquer acidente, para morrermos entre 70 e 80 anos, para
experimentarmos uma morte suave. Basta crermos no coração e
decretarmos em voz alta a posse de tudo isso. Basta usar o nome de
Jesus com a mesma liberdade com que usamos nosso talão de
cheques".
Tais aspectos suscitam uma inevitável questão: que lugar existe
para a mensagem da cruz neste modelo de cristianismo? Ou ainda,
diante dos relatos que serão apresentados, a seguir, se poderia
perguntar: será que estes mártires do cristianismo primitivo, caso
vivessem em nossos dias, seriam aceitos como membros destas igrejas
que abraçaram o ensinamento deste modelo de teologia? Deixemos,
então, que os próprios relatos da história nos fale.
No primeiro século de sua existência, a igreja neotestamentária se
encontrava instalada nas dimensões do império romano. Devido a
profissão de fé que os cristãos faziam em Jesus Cristo, e às
reivindicações do evangelho libertador por eles pregado àquele
mundo fundado num sistema de abuso de poder e opressão, os
conflitos com o Império foram inevitáveis.
O primeiro imperador a iniciar uma ostensiva perseguição ao
cristianismo foi Nero (54-68). Após o incêndio na cidade de Roma,
no ano 64, a mando do próprio imperador, quando dez dos quatorze
bairros foram destruídos, os cristãos passaram a ser acusados como
culpados por tal episódio, sofrendo por isso atroz perseguição.
Tácito, historiador antigo, descreve as atitudes tomadas:
Além de matá-los (aos cristãos) fê-los servir de diversão para o
público. Vestiu-os em peles de animais para que os cachorros os
matassem a dentadas. Outros foram crucificados. E a outros
acendeu-lhes fogo ao cair da noite para que a iluminassem. Nero fez
que se abrissem seus jardins para esta exibição, e no circo3 ele
mesmo ofereceu um espetáculo, pois se misturava com as multidões
disfarçado de condutor de carruagem.
Dados históricos e informações preservadas pela tradição antiga
referentes ao que ocorrera com os apóstolos e outros importantes
líderes do cristianismo em seus primórdios, também nos ajudam a
entender que o compromisso com o caminho da cruz foi levado até as
últimas conseqüências. Muitos foram submetidos ao martírio por
causa do evangelho de Cristo. Vejamos primeiramente alguns exemplos
envolvendo aqueles que fizeram parte dos doze discípulos chamados
por Jesus (Marcos 3:13-19).
André: após a morte e ressurreição de Jesus, foi pregar o evangelho
na região do Mar Negro (hoje parte da Rússia); depois, segundo a
tradição, pregou na Grécia, em Acaia, onde foi martirizado numa
cruz em forma de “X”. Daí, este instrumento de tortura
ter ficado conhecido como “cruz de Santo André”.
Bartolomeu: pregou inicialmente na Arábia, depois Etiópia, e por
fim, ao lado de Tomé, atuou como missionário na Índia, onde foi
martirizado.
Filipe: atribui-se a este apóstolo a fundação da igreja de
Bizâncio, cidade mais tarde conhecida como Constantinopla.
Posteriormente, pregou o evangelho na Ásia Menor, na região de
Hierápolis, onde convertera-se a mulher de um cônsul romano pela
sua pregação. O cônsul, então furioso por este episódio, mandou
prender a Filipe e matá-lo de forma cruel.
Para o lugar de Judas Iscariotes, que suicidou-se, a igreja
primitiva escolheu Matias como seu substituto (Atos 1:21-26).
Segundo a tradição, Matias se tornou missionário na Síria, onde
acabou sendo queimado numa fogueira por causa do evangelho.
Judas Tadeu: segundo a tradição, pregou na Pérsia, onde também foi
martirizado.
Mateus: desenvolveu grande parte de seu ministério pastoreando a
igreja de Antioquia, onde também escreveu o seu evangelho.
Dirigiu-se posteriormente para a Etiópia, onde veio a ser
martirizado por causa da pregação.
Pedro: depois de exercer importante liderança na igreja de
Jerusalém, este apóstolo transferiu-se para a cidade de Roma,
capital do Império. No ano 67, durante perseguição imposta por
Nero, Pedro foi preso e condenado a morrer crucificado. Relatos do
segundo século afirmam que o apóstolo, antes de sua execução, disse
que não era digno de morrer como morrera Jesus, o seu Senhor, e
pediu para que fosse crucificado de cabeça para baixo, e assim
ocorreu.
Paulo: considerado um apóstolo “nascido fora de tempo”
(I Cor. 15:8), tornara-se o grande líder da igreja entre os gentios
e propagador da “mensagem da cruz” (I Cor. 1:18-23).
Uma carta de Clemente de Roma, no segundo século, testifica o que
ocorrera com este apóstolo:
Paulo esteve preso 7 vezes; foi chicoteado, apedrejado; pregou
tanto no Oriente quanto no Ocidente, deixando atrás de si a
gloriosa fama de sua fé; e assim, tendo ensinado justiça ao mundo
inteiro, e tendo para esse fim viajado até os mais longínquos
confins do Ocidente, sofreu por fim o martírio por ordens dos
governadores, e partiu deste mundo para ir ocupar o seu santo
lugar.
No ano 67, quando da perseguição movida por Nero, Paulo foi preso e
levado a Roma, onde recebera o martírio. Pelo fato de possuir
cidadania romana, este apóstolo não poderia ser crucificado (algo
por demais humilhante para o cidadão romano) e por isso deram-lhe
como sentença a decapitação (morte instantânea). A tradição
conservou de forma reverente o lugar da execução deste apóstolo,
juntamente com Pedro: “Desde a mais alta antiguidade, a
igreja romana celebrou juntos os martírios de Pedro e de Paulo no
dia 29 de junho”.
Simão Zelote: desenvolveu seu ministério de evangelização na
Pérsia, onde o culto ao deus Mithras (deus Sol) estava extremamente
desenvolvido. Devido a conflitos com seguidores de Mithras, acabou
sendo morto por se negar a oferecer sacrifício a esta
divindade.
Tiago (Filho de Alfeu): pregou o evangelho na Síria. Segundo o
historiador antigo Flávio Josefo, foi linchado e apedrejado até a
morte.
Tiago (filho de Zebedeu): segundo tradições antigas, citadas por
Justo Gonzalez, este apóstolo desenvolveu um trabalho missionário
na Espanha, pregando na região da Galícia e Zaragoza. “Seu
êxito não foi notável, pois os naturais desses lugares se negaram a
aceitar o evangelho”. Ao regressar para Jerusalém, percorreu
o caminho que deu origem ao lugar hoje conhecido como
“Caminho de San Tiago de Compostela”, na Espanha. Em
Jerusalém, veio a ser preso, sendo em seguida, decapitado por ordem
de Herodes Agripa, no ano 44 (Atos 12:1,2).
Tomé: segundo a tradição, desenvolveu sua atividade missionária
inicialmente na Índia. Dali, dirigiu-se para o Egito, onde realizou
importante trabalho entre os habitantes de língua copta, ministério
este que deu origem à comunidade até hoje lá existente. A Igreja
Cristã Copta, como é conhecida, está separada do catolicismo romano
desde o IV século, tendo patriarcas em sua liderança.
João: este é, reconhecidamente pela tradição e pelos depoimentos do
cristianismo antigo, o último apóstolo a morrer. Morreu na velhice,
por volta do ano 100, na cidade de Éfeso, onde morava com sua
família. Este apóstolo desenvolveu o seu ministério na Ásia Menor
onde foi preso nos anos 90, na época da intensa perseguição imposta
pelo imperador Domiciano ao cristianismo, quando acabou deportado à
ilha de Patmos, no Mar Egeu, vindo a receber ali a revelação do
Apocalipse, por volta do ano 96. Sendo solto posteriormente,
permaneceu em Éfeso ensinando até ao final da sua vida.
Além dos apóstolos, outros importantes líderes do cristianismo
primitivo também deram a sua vida pela causa do evangelho. É o
caso, por exemplo, de Tiago “o irmão do Senhor”, que
exerceu importante liderança na igreja de Jerusalém. O historiador
Flávio Josefo, que descreveu o sítio desta cidade pelo exército do
general Tito, no ano 70, atribui a destruição de Jerusalém a um
“juízo de Deus sobre os judeus pelo fato de terem assassinado
a Tiago, o Justo.” Também o historiador da igreja, Eusébio,
cita um escritor do segundo século, chamado Hegesipo, que descreve
a morte de Tiago. Afirma este autor, que tinha se levantado um
conflito entre os judeus convertidos e os descrentes a respeito de
Jesus ser ou não o Messias, e pediram a Tiago que resolvesse a
questão. “Os escribas e fariseus” – diz Hegesipo
– “Colocaram Tiago de um lado do templo e exclamaram,
dirigindo-se a ele: visto que o povo é levado em erro a seguir a
Jesus que foi crucificado, declara-nos qual é a porta pela qual se
chega a Jesus, o crucificado?”. Ao que ele respondeu em alta
voz: “O Filho do Homem está agora assentado nos céus, à mão
direita do grande poder e está para vir nas nuvens do céu”. E
como muitos se gloriaram no testemunho de Tiago, estes mesmos
sacerdotes e fariseus tomaram a decisão de levá-lo à parte alta do
templo e de lá o lançaram abaixo, “passando em seguida a
apedrejá-lo, visto não ter morrido logo que caiu no chão, enquanto,
ajoelhando-se pedia o perdão de Deus aos seus agressores”.
Deste modo ele sofreu o martírio.
Também Timóteo, discípulo de Paulo, segundo testemunho de Nicéfero,
no segundo século, “foi martirizado durante o reinado de
Domiciano, no ano 96 a.D., em Éfeso, cidade onde morava quando o
apóstolo lhe escreveu as duas cartas”
Até ao terceiro século da era cristã a cruz realmente pautou a
atuação da igreja. E é prova evidente disto o fato de tal período
ter ficado conhecido como a “era dos mártires”. O
historiador Justo Gonzalez descreve com precisão ainda outros fatos
deste período, como por exemplo, o testemunho de fé demonstrado por
Inácio de Antioquia. Discípulo do apóstolo João, viveu no período
de 60 a 117 d.C. Tornou-se célebre pela fidelidade a Cristo em meio
às perseguições que sofrera e às cadeias que enfrentou devido à fé
que professava. Sendo levado a Roma, em algumas paradas
obrigatórias, não se esquecia de escrever às igrejas que o recebiam
ou lhe enviavam saudações. Pelo testemunho vivo de Jesus Cristo,
Inácio está disposto a enfrentar a morte. E, a caminho do martírio,
proferiu as seguintes palavras:
"Não quero apenas ser chamado de cristão, quero também me comportar
como tal. Meu amor está crucificado. Não me agrada mais a comida
corruptível... mas quero o plano de Deus que é a carne de Jesus
Cristo... e seu sangue quero beber, que é bebida imperecível.
Porque quando eu sofrer, serei livre em Jesus Cristo, e com ele
ressuscitarei em liberdade. Sou trigo de Deus, e os dentes das
feras hão de me moer, para que possa ser oferecido como pão limpo
de Cristo”.
Não é diferente o exemplo de fé de Policarpo de Esmirna, o qual,
diante da insistência das autoridades para que jurasse pelo
imperador e maldissesse a Cristo, recebendo em troca disto a
liberdade, respondeu: “vivi oitenta e seis anos servindo-lhe,
e nenhum mal me fez, como poderia eu maldizer ao meu rei, que me
salvou?" E estando atado já em meio à fogueira, Policarpo elevou os
olhos ao céu e orou em voz alta:
Senhor Deus Soberano... dou-te graças, porque me consideraste digno
deste momento, para que, junto a teus mártires, eu possa ser parte
no cálice de Cristo. Por isso te bendigo e a te glorifico.
Amém.
As experiências de Inácio e Policarpo retratam bem a disposição dos
cristãos de tal período em dar testemunho de sua fé em obediência a
Jesus Cristo, até às últimas conseqüências. Para a igreja deste
período, a ressurreição foi, sem dúvida, o impulso maior à
perseverança e à fidelidade ao caminho da Cruz. Ao falar sobre
martírios de cristãos, o teólogo Jürgen Moltmann afirma que
É
Cristo que sofre através dos seus discípulos mártires, pois na
Paixão apostólica pelo evangelho e pela nova criação está presente
o próprio Cristo. Por isso os sofrimentos apostólicos, como
perseguição, prisão, pobreza e fome, são também sofrimentos de
Cristo e, como tais, dores de parto da nova criação. Paulo diz isto
em 2 Cor.4:10 levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que
também a sua vida se manifeste em nosso corpo. Nestes sofrimentos
do caminho da cruz, o mundo presente perece e nasce o novo mundo de
Deus.
Em nossos dias, a “palavra da cruz” parece continuar
sendo “loucura” (1Cor.1:18) para alguns segmentos
cristãos. Mas certamente a cruz, por mais paradoxal que possa
parecer, continuará carregando em seu significado o mistério e o
segredo da vida. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si
mesmo, e tome a sua cruz e siga-me. Porque qualquer que quiser
salvar a sua vida perdê-la-á, mas qualquer que perder a sua vida
por amor de mim e do evangelho, esse a achará.” (Mc.
8:34,35)
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Data de criação : 08/05/10 Última atualização : 09/02/07 01:08 / 16 Artigos publicados
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